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Arquitetos.Por que eles são contra o teatro? Por Oswaldo Mendes/ Blog do Gilson Filho

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No fim de semana fui ver “Pequenas Certezas”, na “reabertura” do Espaço Cênico Ademar Guerra, no porão do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Sai feliz com o espetáculo da Fernanda D’Umbra, mas muito irritado e com uma velha questão na cabeça:
— O que engenheiros e/ou arquitetos têm contra o teatro no Brasil?
Pergunto porque é incansável o empenho deles em destruir espaços teatrais ou erguê-los sem, imagino, nunca terem entrado em um, sequer como público.
— O pior exemplo, aliás, vem de cima, de Oscar Niemeyer. Ao construir um teatro em Araras, por encomenda do governador Orestes Quércia, o mestre da arquitetura brasileira não pensou em coisas elementares como o acesso dos camarins ao palco, o que obrigou a então gordinha Etty Fraser a entrar em cena no elevador de carga (monta-carga). Quem conhece teatros por esse Brasil afora tem muitas histórias para contar semelhantes ou piores que essa de Niemeyer.
— Por que, santo Deus, ao projetar uma cozinha (por exemplo) essa gente não consulta uma cozinheira? O mesmo vale para um teatro. Oh, não,eles são “artistas”, vaidosos demais para consultar essa gentinha…
— O que se fez no porão do Centro Cultural São Paulo é um crime, uma aberração, um absurdo, escolham o adjetivo que quiserem.

A gaivota/ Tchecov


Como ator, participei de dois espetáculos lá. Em 1994, “A gaivota” de Tchecov, em que o cenógrafo José Carlos Serroni aproveitava criativamente blocos de concreto espalhados por lá, restos ainda da construção. O segundo, “Voltaire – Deus me livre e guarde”, direção de Márika Gidali e cenografia de Márcio Tadeu, que usou todo o vasto porão como espaço de representação. Aliás, foi com “Voltaire”, em novembro de 1998, que o porão ganhou o nome do diretor Ademar Guerra, por iniciativa de Sebastião Milaré, então diretor do CCSP.
— Há dois ou três anos resolveram “reformar” o porão. Não se sabe quanto custou em dinheiro, mas em valores não contábeis o que fizeram foi transformar um espaço original, singular, em um espaço banal, com paredes de tijolos de concreto – o que agravou eventuais problemas de acústica. Pior, agora querem erguer paredes pra fazer mais dois ou três espaços no porão. Ou seja, não basta uma porcaria, querem criar várias.
— Daqui a alguns anos, depois do TBC e do Oficina no Bexiga de hoje, a gente vai sair pelas ruas em defesa dos espaços teatrais do Centro Cultural São Paulo. Mas suspeito que será tarde demais para passeatas, discursos, assembleias e alegres manifestações pela ruas do bairro da Liberdade.

 

*Osvaldo Mendes é  ator, diretor e autor de teatro, formado em 1971 pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo. Como jornalista profissional, de 1969 a 1992, dirigiu o jornal Última Hora (SP), foi editor do suplemento Folhetim e sub-secretário de redação da Folha de S. Paulo, editor de Cultura da revista Visão e um dos fundadores da Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA. Escreveu os livros Getúlio Vargas, uma biografia (Editora Moderna, 1984), Ademar Guerra: O teatro de um homem só (Editora Senac, 1997), indicado para o prêmio Shell, e Teatro e Circunstância (Editora Núcleo, 2005) [1], que reúne três de suas peças já encenadas: Um tiro no coração (1984), Voltaire – Deus me livre e guarde (1998) e A dança do universo (2005). Autor dos textos das edições do livro-agenda Anotações com arte, de conteúdo biográfico, sobre Vinicius de Moraes (2004), Chico Buarque (2005-2006), Tom Jobim (2007) e “50 anos de Bossa Nova” (2008).

Em 2009 lançou a biografia de Plínio Marcos “Bendito Maldito” (Editora Leya) que lhe rendeu o Prêmio Jabuti e o Prêmio APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte.
Foto – Cenas de “A gaivota”  no porão do Centro Cultural São Paulo.

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1 Comentário

  1. Wilson Luoz Laguna
    05/12/2017 em 23:31 — Responder

    INFELIZES OS PROFISSIONAIS QUE NÃO SABEM INTERPRETAR O RECADO DOS ENTREVISTADOS.

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