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Num início de Ano Letivo / Por Francisco Brigagão

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O caso se passa no interior de uma escola municipal.

Num primeiro dia de aula, a Professora entra na sala de aula e já encontra, em sala, os seus alunos de quinta série do ensino fundamental.

Ao chegar à sala os alunos ocuparam as suas carteiras de modo aleatório, motivo pelo qual um aluno, conhecido pelo apelido de “Joãozinho”, postou-se quase no fim da sala de aula.

Aquele aluno fora um dos últimos alunos a entrar naquela sala de aula. Até aí, nada de anormal. Seguiu-se aquela balburdia de meninos e meninas se falando ao mesmo tempo.

Aliás, hoje em dia, não sabe muito bem como isso funciona (eu não entendo), mas é notório que tanto os meninos, como as meninas, entre si, falam ao mesmo tempo de assuntos até mesmo diferentes e, quer parecer, que eles se entendem.

Não se sabe como, mas que conversam falando e falando simultaneamente isso é fato. E isso vem ocorrendo em qualquer lugar. Não entendo nada. Creio que impera a completa dissociação de ideias mesmo que externadas entre os interlocutores, não raro, em voz alta.

Mas, voltemos ao caso principal.

A Professora, muito alta e esbelta, adentra a sala, numa calça de jeans da moda, sapato de saltos altos (muito altos), com uma blusa sem mangas, cabelo penteado estranhamente para cima e óculos escuros, de lentes espelhadas na cor verde, preso acima da cabeça.

Nos lábios um baton na cor carmim que realçava uma carnuda boca dotada de um maravilhoso teclado de dentes alvíssimos. O rosto muito bem maquiado, sombrancelhas bem delineadas, que denunciavam uma récem estada em uma “soirée” que, também, poderia ser uma participação num alegre e divertido “luau”.

Enfim, uma gracinha, a Professora. Mas, em seu semblante, demonstrava muita seriedade e até um certo ar de severidade.

Colocada a bolsa acima da mesa, juntamente com a pauta que reza o nome de todos na turma, ela foi logo anunciando; sou a Professora que vai lhes acompanhar nesse Novo Ano Letivo, que se inicia agora.

Daí, começam as perguntas entre os alunos: Letivo ? Letivo ? O que é isso ? O que é isso? Alguém sabe ?

E, alguém se lembra de perguntar ao “Joãozinho”: Joãozinho, você que já é antigo aqui, o que é Letivo ?

Ao que o Joãozinho respondeu: Sei lá pô! Nunca entendi muito bem isso não. Mas, acho que é uma “promessa política”…

Ainda de pé, a Professora percebeu a dúvida do alunado e a resposta do Joãozinho e mostrou que não gostou nada da resposta.

De plano, a Professora resolveu organizar a distribuição do alunado em sala de aula. E determinou: Alunos e alunas, vamos organizar isso.

E, fechando a porta de entrada, continuou: As alunas nas duas fileiras de carteiras do lado direito da sala e os alunos nas duas fileiras de carteiras do lado esquerdo da sala.

Logo, ouvi-se um murmúrio que se confundiu com o burburinho da modificação dos assentamentos.

Mas, a Professora ouviu do que se tratava aquele murmúrio, que lhe fez entender ser uma crítica ácida, qual seja: “Ih, começou a perseguição!“.

Além de identificar as palavras murmuradas, a Professora logo identificou de onde partiu o comentário, pois a voz que o emitiu era rouca e se assemelhava ao que se denomina voz de “pato-rouco”. Enfim, fácil, fácil de se identificar o emitente do comentário.

Era justamente a voz do “Joãozinho”. Era ele. O aluno que murmurava e deixava escapar outras palavras, até mesmo, ininteligíveis, pelo menos à distância.

Por isso, ela o chamou. Você, aluno, qual o seu nome: Ao que ele respondeu, meu nome é “Joãozinho”…

A Professora, imediatamente o corrigiu: “Joãozinho” é seu apelido, eu perguntei o seu nome. E, repetiu a pergunta: Qual o seu nome?

Daí, o “Joãozinho” respondeu: Meu nome é Manoel João. E logo acrescentou: Não gosto do nome Manoel por que tenho medo de que me chamem de MANÉ.

Ao que, acrescentou: não sou MANÉNão sou um MANÉ. Todo mundo me conhece como “Joãozinho”.

Por isso a Professora respondeu: Que tal lhe chamarem de Manoel João ?

E o “Joãozindo” respondeu: Não gosto. Dá no mesmo.

Mas a Professora lhe adiantou: Aqui, quando eu fizer a “chamada” vou lhe chamar por Manoel João.

A propósito, venha sentar-se aqui na frente, na primeira carteira da fileira que começa logo depois da porta de entrada. Será o seu lugar até o fim do ano.

E dirigindo-se para turma, a Professora disse: Pessoal, memorizem seus lugares nas fileiras, eles não poderão ser mudados até o fim do ano.

Seguiu-se que a Professora se sentou, pela primeira vez, àquela sua mesa.

Nesse ínterim, ela já percebera que o “Joãozinho”, estando mais perto, era muito “branquelo” e mantinha os seus cabelos desalinhados, embora suas roupas estivessem limpas, mas que lhe pareciam muito usadas.

E, o “Joãozinho” mantinha cravados os seus olhinhos na Professora, que pela sua experiência de mulher, logo percebera.

Ato contínuo, a Professora abriu a bolsa, retirou uma caneta, abriu a pauta da turma e anunciou: Vamos fazer a “chamada”. Vamos fazer silêncio! E ainda acrescentou, quando o aluno ou a aluna ouvir o seu nome, responda PRESENTE.

E, começou a fazer a chamada por ordem alfabética, como é de praxe.

Chamou a um, e a outro nome, e a jovial resposta era: PRESENTE, Professora!

Seguia-se que a Professora mostrava que dava uma boa olhada em cada aluno antes de colocar o “P” na pauta da turma, logicamente para indicar a presença do aluno(a).

Quando chegou a vez do Manoel João, a Professora teve que repetir o nome de “Manoel João” três vezes, embora ele estivesse, como que absorto, ainda que olhando diretamente para a própria Professora.

Porquanto disso a Professora, impaciente com o que lhe pareceu uma falta de atenção, e olhando fixamente para ele, falou: Menino estou falando contigo, responda!

Instado a responder o “PRESENTE”, na forma de estilo, o menino “Joãozindo”, disse apenas: PRONTO. PRONTO. Estou aqui! Como queira, PRESENTE.

Por esse ocorrido, a Professora sem falar nada examinou melhor a pauta da turma, a qual, ao final da linha correspondente ao nome de Manoel João, denunciava que aquele Manoel João, aqui, “Joãozindo”, era repetente da quinta série e pela terceira vez.

A Professora levantou o rosto, já olhando na direção do Joãozinho, ou Manoel João, falou: Manoel João essa é a terceira vez que você vai cursar a quinta série do ensino fundamental ?

Aqui diz que você já conta com quatorze anos ?…

Nesse interim, a turma em completo silêncio pareceu interessada no que se seguiria, ou seja, no que seria dado como resposta.

Sim, Professora. É verdade.

Mas por que motivo ou motivos ?

É que eu tenho sido “persiguido”.

E a Professora continou: Voce gosta de estudar ?

Por sua vez, ele respondeu: Gosto, Professora.

E, a Professora continuou indagando: Qual a matéria que você tem sido reprovado?

A que, ele prontamente respondeu: Matemática. Matemática, Professora. E, olha, sou autodidata.

Perplexa com a reposta de “Joãozinho”, a Professora comentou: Autodidata! Muito bem!

E, em ato contínuo, desviou seu olhar de “Joãozinho” dando sequência a “chamada”, pronunciou outro nome, embora estivesse consciente que “Joãozinho” mantinha nela os olhos pregados.

Já incomodada com a “marcação cerrada” que “Joãozinho” lhe impunha, a Professora, após ouvir o “PRESENTE, Professora” que seguiu após a indagação entabulada com “Joãozinho”, parou a novamente a sequência e voltou o rosto para o “Joãozinho” e lhe perguntou: O que você vai ser quando crescer, Manoel João ?

O “Joãozindo”, dessa vez mostrando-se plenamente atento, respondeu: “PROFESSOR”. Vou ser “PROFESSOR” de Matemática e vou ser membro do IMPA.

Ao ouvir isso, a Professora, muito assustada com a resposta oferecida com muita presteza, retrucou: IMPA ? O que é IMPA para você, Manoel João ?

Interessado em prender a atenção da Professora, ele respondeu: IMPA, significaInstituto de Matemática Pura Aplicada, Professora.

E, ela mostrando muita perplexidade, acrescentou: Está bem!

Mas, entrementes, desviou o rosto dele e prosseguiu na “chamada” de uma turma formada por sessenta alunos, os quais mantinham a atenção e os olhares para o “Joãozinho”. Ele parecia “liderar” a turma.

Bem, terminada a “chamada” a Professora levantou-se, ficou de costas para a turma, pegou o giz e, durante o tempo que escrevia seu nome e a data dia ouvia alguém pigarrear repetidamente, cujo som provocado vinha exatamente do lugar onde “Joãozinho” estava sentado.

Ela, escreveu o nome dela no quadro e em seguida escreveu a própria data data do início das aulas, pegou a pauta e copiou para o quadro as datas das provas, acrescentando, ao final, a data do encerramento do ano letivo e data da publicação das notas das provas finais.

Ao ver o nome da Professora no quadro o “Joãozinho” não se conteve e disse:Jacqueline. A “danada” tem um nome “maneeeero”…

A Professora, por sua vez, ouviu isso, mas manteve-se firme.

Ao se voltar para turma, “Joãozinho” foi logo dizendo: Professora, você tem muito cabelo embaixo do braço direito.

Ah, com essa, ela corou, e disse: Manoel João, recolha seu material escolar, retire-se da sala e só volte aqui amanhã.

“Joãozinho”, sem dizer uma palavra, foi embora.

No dia seguinte, quando a turma entrou na sala a Professora já estava sentada à sua mesa e ficou a observar a tomadas dos seus respectivos lugares pelo alunado da turma.

Manoel João, ou “Joãozinho”, foi o último a entrar e logo sentou ao seu respectivo lugar designado pela Professora no dia imediatamente anterior.

Com isso, a Professora percebeu que a turma estava coesa com suas ordens. E, entendeu que tudo se desenvolveria em clima de normalidade durante aquele novel Ano Letivo.

Todos a postos, a Professora, levantou-se de sua mesa e foi até a porta para fechá-la, quando ouviu um comentário de “Joãozinho”: Huum! Gosto muito desse perfume. é meu perfume preferido. É o Giorgio. Custa uma “baba”, esse perfume.

 A Professora limitou-se apenas em olhar na direção do Manoel João, mas, aos costumes disse nada.

Porta fechada a Professora, já meio que desconcertada dirigiu-se para o quadro, onde escreveu, com a mão esquerda (logicamente para não levantar o braço direito), a data dia e o tema da aula que seria ministrada.

Ao retornar para a mesa a Professora foi interpelada novamente pelo “Joãozinho”: Puxa, Professora “você” muito cabelo embaixo do braço esquerdo, também. Por que você não se depila ? É legal!

A turma, ao ouvir isso, não se conteve e explodiram em uma gargalhada.

Visivelmente irritada, a Professora vaticinou: Manoel João, recolha seu material escolar, retire-se daqui e vá para sua casa. Só volte aqui na próxima segunda-feira, e ainda mostrando aquele “teclado” contornado com a aquele magnífico baton carmim, aproveitou para acrescentar: Ou seja, só volte na semana que vem.

Joãozinho, novamente sem dizer uma palavra, retirou-se e foi embora.

Seguiu-se um silêncio sepulcral na turma. E a aula prosseguiu com a feitura da “chamada” após os trabalhos entabulados durante a aula.

Passada a semana toda, nada de novo ocorreu, embora a Professora tenha preferido fazer a “chamada” antes do começo das aulas.

Mas, quando chegou a segunda-feira, “Joãozindo”, ou o Manoel João, apareceu e sentou, logicamente no lugar para ele reservado.

E, a “marcação cerrada” na Professora foi retomada pelo “Joãozinho”, e ela sabia disso (sabia que isso estava ocorrendo), mas não olhou na direção dele, embora tenha pedido a uma aluna, que sentava-se adiante de sua mesa, para fechar a porta de entrada, evidentemente para que não tivesse que se aproximar dele.

Uma vez fechada a porta, e apresentado um cordial agradecimento à aluna que a fechara, a Professora se levantou e para ir ao quadro, quando “Joãozindo” notou que, embora a Professora estivesse com aquele penteado e com a cabeça encimada por aquele mesmo óculos, ela estava de saia, bem curta, deixando ver suas belas pernas, embora estivesse vestida com uma blusinha fechada e simples.

“Joãozindo” ao ver “aquilo tudo”, fez muitos movimentos que fizeram um estranho barulho em seu lugar e, ela percebeu, que ele até esfregara o pé no chão, tal como faz um touro que vê sua fêmea diante de si.

A Professora, mesmo nervosa com a situação, não se voltou, pegou o giz para escrever no quadro e, durante a escrita, o giz quebrou-se, mas ela continuou a escrever com o que restou-lhe na mão do giz, como de costume, a data e o tema da aula do dia.

Ao terminar de escrever, a Professora instintivamente, abaixou-se e pegou o pedaço de giz que caíra ao chão e voltou-se de frente para a turma.

Diante desse ocorrido, Maneol João, aquele, o “Joãozinho”, levantou-se já pegando o seu material escolar e dirigindo-se para toda a turma, disse em voz alta: Pessoal, pelo que acabo de ver “embaixo da saia” da Professora, agora só volto aqui no ano que vem. Depois das ferias de fevereiro, do ano que vem.

Tchau! E saiu…

  • Francisco Breigagão/ Universidade Cândido Mendes. Reside no Rio Janeiro.
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1 Comentário

  1. Miriam
    03/02/2018 em 01:44 — Responder

    Muito boa a história!

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