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Curitiba / O ‘João de Barro’ que caiu na terra de Paulo Leminsky / Por Márcia Intrabartolo / Blog do Gilson Filho /

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O passarinho vinha do nordeste, mas chegando em Curitiba bateu de frente no paredão de pedra da Ópera de Arame e caiu tonto. Ficou ali, gemendo mudo, solitário. Ninguém deu bola pro bichinho de peito agonizante e bico aberto.

Era um João-de-Barro, passarinho da Silva comum, que constrói ninhos de terra. Tinha feito muitos pelo caminho. Ele é mestre em construir uma bolinha com porta de entrada, um Minha Casa Minha Vida Bird, lugar de elevar a auto-estima.

A moça não o chutou por pouco. Viu-o, teve dó, mas seguiu. O segurança assistiu o acidente de braços cruzados e parece que achou ser merecido, tinha que ter olhado por onde andava. Um vendedor de panelas para turistas, loiro e alto, também nada fez.

O passarinho caiu na cidade do poeta Paulo Leminski, aquele do verso “Essa minha secura/essa falta de sentimento /não tem ninguém que segure, /vem de dentro”.

Todo mundo seco ao redor dele, que delirava, e em seu delírio, um homem qualquer, tão brasileiro quanto o João-de-Barro, abaixava-se, o acolhia entre as mãos, levava-o para a sombra e punha-se a acarinhar seu cocoruto. A minúscula cabeça receberia os carinhos e ele seria servido de gotículas de água no bico.

Entretanto, continuava no chão quando ouviu comentarem sobre uma notícia do jornal do dia em que um estrangeiro importante afirmava que o ex-presidente do seu país era o preso político mais importante do mundo na atualidade.

O mesmo mundo passava ao redor sem barulhos enquanto ele agonizava em um ponto turístico muito freqüentado, aquela gaiola em Curitiba – a Ópera de Arame – aquele palco, aquele lugar de encenação.

Mesmo assim, acreditava que podia sair dali.

Mesmo assim, aos poucos ele foi recobrando seus sentidos, e forte como era, chacoalhou-se e voou.

Forte como era, voou, repito.

Como na frase do poeta curitibano que ele gostava tanto de repetir: “Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”.

 

Um brinde todo especial às letras de Márcia Intrabartollo, poeta e escritora que, para minha satisfação e dos leitores, estreia hoje neste Blog. Seja muito bem vinda querida amiga

 

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