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Judeus “ressuscitam história” em Cabo Verde e isto tem a ver com o Brasil

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Wahnon, Cohen, Levi, Benchimol, Benoliel, Benrós, Abraão, Jacó, Brigham. Certamente tem um familiar ou conhece alguém com um destes sobrenomes . Mas há poucos, muito poucos que questionam a sua origem. São sobrenomes que os judeus usavam e que ficaram aquando da sua imigração para Cabo Verde, vindos de Marrocos e Gibraltar, nos meados do Séc. XIX. Mas não foram apenas os apelidos que essas famílias deixaram por estas bandas. Graças à sua forma de preparar os seus mortos para o sepultamento, construíram-se cemitérios em Santo Antão, na Boa Vista e em Santiago, um imenso e importante património que está agora a ser recuperado pelo Projecto de Preservação da Herança Judaica em Cabo Verde (CVJHP), uma organização sem fins lucrativos criada nos EUA por Carol Castiel. Em entrevista ao asemanaonline, esta judia conta como surgiu a ideia, os objectivos, a sua importância para Cabo Verde e traça o passo maior: classificar a herança judaica como Património Nacional.

A Semana: Como é que surgiu a ideia de preservar a herança judaica em Cabo Verde?

Carol Castiel: O Projecto para a Preservação da Herança Judaica foi criado nos EUA. Eu interessei-me porque viajo para Cabo Verde frequentemente desde 1986. Eu era directora de um programa de bolsas para o Instituto Afro-americano e havia muitos candidatos de Cabo Verde com apelidos judaicos, como Levi, Wahnon, Benchimol. Eu perguntei e eles explicaram que a maioria dos seus antepassados veio de Marrocos e era judia. Em Cabo Verde o meu interlocutor foi o José Luís Rocha, actual Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, mas que nessa altura trabalhava no Ministério que tutelava a Cooperação. Ele também é descendente de uma família judaica, Brigham, que é de Santo Antão. Foi ele quem me informou que havia cemitérios judaicos em Cabo Verde. A partir daí a curiosidade falou mais alto e comecei a interessar-me pela história judaica do país. Eu sou voluntária, não ganho um tostão com isto, trabalho na Voz da América e só quando venho de férias é que mostro o meu empenho e dedicação a esta causa.

Quando é que criou o projecto?

Com a ajuda de um amigo advogado, também ele judeu, criei o projecto em 2007. Os membros do Conselho de Administração são a Embaixadora dos EUA em Cabo Verde, o Embaixador de Marrocos em Cabo Verde, Embaixador de Portugal e várias outras pessoas, como o Januário Nascimento, o John Wahnon, e o José Tomás Veiga. Depois de criar o projecto, conheci mais gente descendente de judeus, como a Vera Duarte, dos Benrós, em Santo Antão. O nosso objectivo é restaurar os quatro cemitérios judaicos em Cabo Verde: dois em Santo Antão, um na Boa Vista e outro na cidade da Praia.

Além dos cemitérios, o que é que encontraram herança judaica?

Os vestígios da herança judaica são essencialmente os cemitérios. Foram na sua maioria homens judeus solteiros que vieram para Cabo Verde. E pouco a pouco começaram a assimilar os costumes cabo-verdianos, a casar-se com as crioulas cristãs o que diluiu os costumes judaicos. É por isso que hoje não há uma comunidade praticante do judaísmo, mas sim os vestígios dessas famílias e da sua presença judaica em Cabo Verde. Mas o mais importante é que deixaram traços da sua identidade. Essa gente se sentiu uma ligação a uma religião e aos seus costumes. Muitas dessas famílias nada sabiam sobre o judaísmo, mas agora interessaram-se em saber mais e a colaborar com o nosso projecto.

Além de recuperar a herança, querem que as pessoas pratiquem o judaísmo?

Absolutamente não. Queremos é ajudar as pessoas saber e compreender um pouco da sua história e do seu passado. A nossa organização podia servir como recurso para saber o conceito de Deus em judaísmo ou como é que o judeu enterra os seus mortos, o significado das rezas, porque um cemitério é mais importante do que uma Sinagoga, etc. Queremos ser o recurso, a ponte para educar as pessoas. Mas se a pessoa quiser converter-se, aí não há problema. Podemos indicar a pessoa com quem pode falar para todo esse processo.

Quando é que os judeus vieram para Cabo Verde?

Os judeus vieram para Cabo Verde no Séc. XIX, principalmente por razões económicas. Havia condições, oportunidades de comércio – carvão, porto grande, agricultura, mar – no país. Primeiro foram os ingleses que estiveram aqui e muitos judeus vieram com os passaportes britânicos, através de Gibraltar.

Qual a importância e que vantagem Cabo Verde pode ter com essa recuperação?

Honrar a memória e preservar a história por si só é uma coisa muito importante. O património judaico em Cabo Verde deve ser preservado, porque isso faz parte da sua história e da sua própria identidade como povo. Se não conhecemos a nossa história é como um capítulo perdido da nossa vida. Eram poucos, mas os judeus tinham um peso enorme a nível económico e educacional do país. Eram famílias importantes que derem muito para as ilhas ao nível económico. O senhor David Benoliel era considerado o motor da ilha da Boa Vista. Empregou muita gente, tomou conta da ilha nas alturas mais críticas. São pessoas de destaque e fazem parte integrante da história do povo cabo-verdiano, mas isso até agora não foi reconhecido. Há ainda vantagens económicas e culturais para Cabo Verde, porque uma vez recuperados, os cemitérios e as casas comerciais poderão servir como roteiro turístico para os judeus de vários países. As pessoas saberão que Cabo Verde é um povo de mistura de muitos povos, mas também que não tem um turismo só de sol e de praia. Pode ter um turismo cultural e histórico. Isso mostra a tolerância de um povo plural, com uma origem plural. É interessante conhecer cada vez as nossas origens e enriquece a nossa personalidade.

Há pessoas no estrangeiro com esses apelidos, isso nos leva a dizer que já temos uma diáspora judaica?

Esta é uma boa pergunta. Em Lisboa há uma geração de judeus, como o Jacinto Benrós, gente que deu dinheiro do seu bolso porque acredita no nosso projecto. São pessoas que falam e fazem. Não são muito ricas, mas gostam de ajudar. Há uma diáspora de cabo-verdianos católicos e uma diáspora de cabo-verdianos judeus, espalhados pelos EUA e pela Europa. O nosso trabalho não é só recuperar cemitérios e depois fazer visitas a túmulos, mas sim documentar a história e preservar a memória. Estamos a recolher todos os dados para eventualmente publicar livros e vídeos sobre os judeus. Estamos a fazer a documentação possível para entender melhor, saber o que fez esta gente imigrar para Cabo Verde e o impacto que tiveram na economia local.

Relativamente às autoridades, como tem sido a abertura para com este projecto?

Como associação, a primeira coisa que fizemos foi enviar uma carta ao Primeiro-ministro, José Maria Neves. Mas este nos informou que são as Câmaras Municipais que tomam contam dos cemitérios. Depois disso, fui à Santo Antão, assinar um protocolo com a Câmara Municipal da Ribeira Grande. Mais tarde, assinamos protocolos também com as Câmaras da Boa Vista e da Praia. Mais: mantemos contactos com o Ministério da Cultura, para este avaliar a possibilidade de classificar os cemitérios e outros lugares de memória judaica como patrimónios nacionais.

Já fizeram esta proposta?

Sim. Já enviamos as propostas e tivemos um feedback muito positivo. Neste momento, estamos empenhados nos estudos. Daqui para frente o nosso trabalho será centrado no sentido de ver a herança judaica ser classificada a património nacional. A nossa ideia é trazer mais gente para Cabo Verde e colocar o país no roteiro de turismo cultural.

Quem, por exemplo?

O projecto está no começo. Mas achamos interessante trazer uma delegação de Marrocos ou Gibraltar a Cabo Verde, para conhecer a realidade, realizar intercâmbios culturais e comerciais no país. Gostaríamos de apresentar uns aos outros e saber como podemos trabalhar juntos. O rei de Marrocos, Mohammed VI, que dá muito valor a herança judaica, soube do nosso empenho, isso o sensibilizou e deu o seu contributo. Agora, ele é um dos nossos maiores benfeitores. E graças a sua ajuda arrancamos com a recuperação no cemitério da Várzea e da Boa Vista. Brevemente vamos iniciar os trabalhos em Santo Antão. Para nós é simbolicamente interessante, estamos a ressuscitar a história. Um rei muçulmano financiando a recuperação da herança judaica num país maioritariamente católico-cristão é uma mensagem importante de tolerância. É a prova que quando saímos da política tudo é possível.

Por: Ricardino Pedro

A Cidade On Line Cabo Verde.

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